domingo, 14 de outubro de 2018

Uma crônica sobre política no transporte público

Todos os dias, a caminho do trabalho, escuto - entre uma música e outra - as conversas nascidas nesse ambiente tão rico de realidade e humanidade que é o transporte público. Às vezes, o papo está tão bom que nem desenrolo o fone de ouvido e prefiro anotar no meu post it mental os causos que renderiam boas crônicas. De uns tempos para cá, até mesmo as desgraças compartilhadas arrefeceram para dar lugar ao debate político.
 
Não minto: é Bolsonaro cá, Lula lá, . Ainda não presenciei discussões acaloradas, com agressões de todo tipo. Em geral, o assunto é tratado com bom humor, mas a impressão que tenho é de que isso é para atenuar a desesperança e o desassossego de um povo que, já cansamos de saber, não acredita mais nos políticos.
 Semana passada, duas moças sentadas atrás de mim conversavam sobre o desempenho dos candidatos à Presidência em um debate:
- Mulher, eu assisti só pra achar graça. Ninguém ali sabe de nada, não.
Autor: Alex Azevedo
 A conversa foi entrecortada pelo ruído do trânsito e não consegui mais ouvir quase nada. Fiquei pensando, porém, sob qual perspectiva elas atribuíam a ignorância dos presidenciáveis. Certamente não pelos números que despejam na protocolar discussão ensaiada meia dúzia de vezes durante a campanha.
 O que falta aos candidatos é um tanto de realidade. A realidade nua e crua que o povo experimenta diariamente. E não basta visitá-la de quatro em quatro anos ou forjá-la com vitimismo. Não adianta ir ao centro da cidade e apertar a mão do pobre se, na testa, estiver escrito em letras garrafais: "Não sou daqui".
 Não quero dizer que é necessário ao político ser pobre. Ser "de origem pobre" ou ser "novo na política" são categorias sempre ressaltadas por candidatos nas eleições, mas que são meros fetiches linguísticos - por si mesmas não significam coisa alguma se a compreensão deles sobre a realidade não for profunda.
 Ao político é imprescindível um misto de conhecimento prático e reflexivo, técnico e comum. É preciso balancear sabedoria científica com popular, cujo maior detentor é o povo que o elege - e o povo sabe muito.
 Também é vital o respeito à moral, à fé, à cultura e às tradições do povo. Enfim, é preciso ter sinceridade: o andar lado a lado com a verdade de ser, falar, agir e defender. Atrás de mim, as duas amigas concluíram a conversa assim: "Eles só falam mentira". Ninguém acredita mais.

Letícia Alves 
leticiaalves@opovo.com.brjornalista do O POVO
Link 
https://www.opovo.com.br/jornal/opiniao/2018/08/uma-cronica-sobre-politica-no-transporte-publico.html

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